Em causa o futuro da Casa da Igreja
A Casa da Igreja é um solar do século XVIII com grande valor patrimonial, tendo sido objeto de uma reabilitação marcante, liderada pelo arquiteto Fernando Távora, entre 1958 e 1961. O imóvel representa a arquitetura senhorial da época, em grande medida preservada durante a reabilitação. Exemplo disso são os tetos ou a capela.
A importância da Casa da Igreja, para Mondim de Basto, reside na sua representação da arquitetura senhorial do século XVIII, consequentemente na identidade cultural do nosso concelho, e na intervenção de Fernando Távora, um dos mais destacados arquitetos portugueses do século XX, fazendo do imóvel uma peça única do património arquitetónico nacional.
Prova desta importância histórica, e até científica, é o facto de esta ser referida em diversos arquivos respeitantes ao arquiteto Fernando Távora, mas também inventariada no Sistema de Informação para o Património Arquitectónico bem como no inquérito da arquitetura portuguesa do século XX. Nos últimos anos foi até alvo de interesse académico, com a sua integração em tese de doutoramento e várias publicações e artigos científicos.
Fernando Távora (1923–2005) foi um dos arquitetos mais influentes de Portugal no século XX. Considerado um dos mentores da reputada Escola de Arquitetura do Porto, foi professor de várias gerações de arquitetos contemporâneos, nomeadamente Siza Vieira e Souto de Moura.
Motivos mais do que suficientes para priorizar a sua preservação. O programa funcional do projeto que nos foi apresentado em reunião de câmara não apresenta qualquer uso que possa justificar tamanho atentado ao património municipal. O mesmo poderá ser dito sobre o valor do investimento: a obra em causa estima-se por um valor de 3 Milhões de Euros (que manifestamente serão insuficientes). O argumento do financiamento comunitário não tem fundamento. A exemplo de outros grandes projetos do atual executivo, o financiamento comunitário deverá ficar bastante abaixo dos 50%, uma informação que só será possível confirmar quando houver transparência.
Para que se perceba o que está em causa, partilhamos alguns detalhes do que prevê o projeto:
A concretizar-se esta obra, nada, ou pouco, restará da Casa da Igreja, para além uma "casca". Todo o interior criado, e muito dele mantido pelo arquiteto Fernando Távora aquando da sua intervenção, é demolido. Exemplo disso, são os tetos falsos - desaparecem por completo.
| Tetos do interior da casa que a intervenção prevê destruir. |
Também no exterior, alguns elementos que tornam a casa digna de nota, como os painéis em madeira deslizantes na fachada tardoz, ou a grande viga em betão que faz a ligação entre a intervenção moderna e o solar barroco, são removidos ou obliterados. O projetista teve, aliás, a ousadia de fazer o arranque de um novo volume de construção, encostando-o a esta viga. Todo o arranjo exterior, no tardoz da casa, da autoria do Arquiteto Fernando Távora, é totalmente destruído pela implantação do novo volume para a sala polivalente, sem qualquer possibilidade de retorno.
Para construção de um miradouro, através da criação de uma plataforma em aparente relógio de sol, escondem-se e destroem-se elementos característicos importantes na compreensão do conjunto da Casa da Igreja, como os tanques para regadio, onde encontramos o icónico pinheiro manso que a todos impacta desde longe. Estes elementos devem ser preservados e não sobrepostos por uma atitude de novo-riquismo bacoco. O miradouro existe já, sendo suficiente utilizá-lo.
Pinheiro manso, imagem de marca da Vila de Mondim de Basto.
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Tudo isto para construir mais um conjunto de salas e escritórios que se repetem, indefinidamente, até preencher o volume existente da Casa da Igreja e mesmo transbordando para outros volumes exteriores aparentemente desnecessários.
| Salas de capacitação, gabinetes, copas, etc... |
Em suma, trata-se de uma obra exagerada sem qualquer tentativa de integração e respeito pela construção existente. Este facto advém, talvez, da mescla de programas funcionais que se tentaram compilar num só, resultando por isso a proposta de intervenção como reflexo desse problema de partida: falta de clareza e senso de economia de meios.
Destrói-se muito de aquilo que é um bem patrimonial de nível regional, dir-se-ia, com importante impacto no que à história da arquitetura portuguesa diz respeito, sobretudo pelo seu autor e pelos ensaios que aí levou a cabo.
Dito isto, a nossa proposta foi clara: deverá ser levado a cabo um estudo histórico-artístico do bem patrimonial, realizado por figuras idóneas na matéria, estabelecendo assim uma base para depois concretizar um projeto informado, digno e respeitador da nossa história que, ao invés do imediatismo pobre e supérfluo, nos possa abrir futuros que promovam a prosperidade com orgulho daquilo que construímos e preservamos.
Não nos parece que a proposta que apresentámos em reunião de câmara vá merecer o acolhimento por parte do executivo, que se diz "empenhado em executar este projeto". A única possibilidade para parar este atentado, está agora na mão dos mondinenses. Só um sobressalto, de todos os que partilham desta preocupação, pode impedir que algo de irreversível seja feito.